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Trabalhar com T.I. no exterior: Um outro lado da moeda


Recentemente fizemos uma entrevista com um colega soteropolitano que mora no exterior e vive de tecnologia da informação. Sua posição sobre sair do país e morar fora foi bem enfática. Porém, sabemos que sobre este tema não existe apenas uma visão. Pensando nisso, resolvemos entrevistar o Roberto Ferraz, que traz um ponto de vista um pouco diferente do que foi apresentado na última entrevista.

Roberto possui 29 anos. Cursou informática na UCSAL, depois fez pós-graduação em sistemas distribuídos e ubíquos no IFBA. Trabalhou na SAP, UNITECH, Cardio Pulmonar e na Cac.to, a qual fundou antes de decidir sair do país. Ele conta como foi sua trajetória até chegar em Berlim.

Roberto

Victor Mansur – Roberto, qual foi o mote da sua ida?

Roberto Ferraz – Montei uma empresa com meu primo Diego Novaes, chamada Cac.to. A idéia inicial era ter um produto, um app único. Mas como a gente precisava ganhar dinheiro, terminamos criando APP de dispositivos móveis para empresas. Posteriormente, começamos a atender clientes em São Paulo pois o mercado de Salvador não consumia nosso portfólio, mas no final, o plano de ter um produto único falou mais alto. Em São Paulo, comecei a procurar um país para morar. Inicialmente procurei empresas no Canadá, mas sempre quis morar na Europa. Pensei na Alemanha, por se tratar de um país economicamente forte e por já ter um relacionamento com uma Alemã.

Victor Mansur – Mas você procurou por emprego antes de sair do país?

Roberto Ferraz – Exato! Já de São Paulo eu comecei a procurar por empregos em outros países. Achei o DriveNow (joint venture entre BMW e Sixt). Mesmo sem eles estarem contratando para a tecnologia que trabalho, enviei o curriculum. Acabei sendo convidado para uma entrevista via conferência. Em seguida, fui convidado para uma entrevista na Alemanha. Depois que voltei ao Brasil, a empresa queria saber minha opinião sobre ir trabalhar com eles.

Victor Mansur – Logo em seguida partiu?

Roberto Ferraz – Sim, sem dúvida.

Victor Mansur – Além dos citados, existiam outros fatores que contribuíram com sua ida?

Roberto Ferraz – Sim. A segurança e o acesso à saúde no Brasil foram um deles. Na época, uma amiga tinha sofrido um sequestro relâmpago. Se você quer ter segurança e uma qualidade de vida maior no Brasil, você precisa trabalhar muito mais para ter acesso à estes itens. E, mesmo tendo uma situação financeira mais confortável, você estará sujeito a falta de segurança.

Victor Mansur – Você sairia do Brasil apenas pelo trabalho?

Roberto Ferraz – Sim. Mas não apenas pelo dinheiro. Pela experiência enriquecedora e pela capacitação que terei após toda esta experiência.

Victor Mansur – E nosso mercado local, o que acha?

Roberto Ferraz – O Brasil tem muito espaço para Tecnologia da Informação, e dá muito dinheiro. O problema é que, além do dinheiro se concentrar no eixo Rio-São Paulo, existem muito pouca capacitação pessoal.

Victor Mansur – E o mercado de Salvador? Vejo pessoas reclamando de falta de oportunidades, por outro lado, vejo muita gente sem capacitação falando isso. Qual seria a solução?

Roberto Ferraz- Dar uma solução é muito difícil. Existem colegas que ganham muito bem, porém, o número de vagas para quem ganha bem não é grande. Quem se preparar vai se destacar, com certeza. Quem quer ter salário alto, tem que ter preparo. Um dos grandes problemas que temos aqui é a mentalidade do empresário. Eles não pensam de forma coletiva. Pensam muito em si. Isso dificulta muito.

Victor Mansur – E a língua? Alguma dificuldade?

Roberto Ferraz – Eu já dominava o inglês. Me preparei bem antes de ir morar fora.

Victor Mansur – Qual maior diferença entre o mercado daqui e o de Berlim?

Roberto Ferraz – Eles possuem um alto grau de exigência e muito foco. Sempre tentam manter um alto nível e melhorar sempre. Por conta disso, acaba que nos nivelamos por alto. Jamais aceitam soluções que sejam apenas boas, tem que ser excelentes. Isso fez com que eu melhorasse bastante tecnicamente. Eles sempre esperam bons resultados, então temos que mostrar alto nível a todo momento.

Victor Mansur – Mas sobre o que foi dito na outra entrevista, sobre o exterior ser igual ao Brasil no quesito relação no trabalho? Foi dito que, assim como no Brasil, sempre tem alguns profissionais que tentam te pôr para trás ou passar a perna.

Roberto Ferraz – Eu discordo totalmente! O que vejo é que as pessoas nos ajudam a ser melhor. Os chefes não exploram! Para ter uma ideia, nunca pediram para que eu trabalhasse fora do horário de expediente. O povo alemão espera que você seja proativo e responsável. Se você sabe o que precisa ser feito, faça! Não espere ninguém mandar fazer. Aqui é a cultura da alta produtividade e também da confiança.

Victor Mansur – Hoje em dia, qual cargo que você ocupa e em qual local trabalha?

Roberto Ferraz – Hoje trabalho na Book a Tiger, em Berlim. Sou responsável pelo departamento Mobile.

Victor Mansur – Qual dica você daria para o pessoal de Salvador que gostaria de se preparar para uma jornada no exterior?

Roberto Ferraz – Primeira coisa é estudar inglês. Para quem reclama do investimento em curso de inglês, existem inúmeras maneiras de aprender o idioma. Vendo filme com legenda em inglês, escutando músicas, procurando diálogos na língua, há instituições de intercambio em Salvador que trazem estrangeiros à todo momento, etc. Segundo, se aprofundar bastante no conhecimento teórico. Todas as entrevistas que participei, eles exigiam bastante o conhecimento teórico. Não adianta apenas ser um bom técnico. E terceiro, a vontade de encarar este desafio. Recentemente divulguei uma vaga de desenvolvedor Android para Alemanha, numa comunidade de TI da cidade. O post teve várias curtidas, vários compartilhamentos e apenas um curriculum enviado. Não podem apenas reclamar que não tem vaga. De maneira geral, eu sugiro, além da capacitação, não ter medo de agarrar as oportunidades.

Victor Mansur

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4 Respostas

  • Nailton Lantyer Filho em 22 de março de 2016, 11:19:14

    O Roberto é um profissional extremamente capacitado além de ser uma pessoa sensacional. Toda a sorte do mundo para ele e muito sucesso.

    Responder para Nailton
  • fagner em 24 de março de 2016, 09:58:19

    otima entrevista,muito interessante para quem almeja saber sobre o mercado de trabalho estrangeiro,. sucesso Roberto.

    Responder para fagner
  • Luiz Dias em 24 de março de 2016, 13:08:33

    Sou formado em TI pela Northwest Missouri State University (Missouri, EUA). Trabalhei como diretor de tecnologia em uma empresa nos EUA, mas em 2006 decidi voltar para o meu país para contribuir no que pudesse.
    Após 10 anos morando no Brasil, o meu arrependimento é muito amargo. Vejo que realmente a insegurança, corrupção e falta de educação reina no país. Você tem que ser milionário para viver uma vida de classe média.
    É realmente uma pena que uma país tão lindo e com muitas possibilidade tira a vontade e vocação de permanecer neste país. Acorda Brasil, vamos lutar pela nossa liberdade, educação e segurança, exigindo dos nossos governantes o direito à vida.

    Responder para Luiz
    • Cláudia em 15 de abril de 2016, 13:57:58

      Luiz irei lutar sim, mais é para fazer o oposto do que você fez, não sou formada em TI, fiz direito, antes ainda pensava em continuar no Brasil,serviço público pois sou assistente adm,apesar de ser concursada ganho pouco, e essas questões de saúde, segurança,e todo o resto pesaram na minha decisão, prefiro sair daqui.Prefiro até trabalhar em sub-emprego do que continuar da forma que estamos aqui, estou procurando me qualificar no que puder, emprego na minha área não irei conseguir, mais titularidade não é nada.Tudo de bom pra você.

      Responder para Cláudia

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